“- Bom dia!”
-Hoje venho pedir um favor! É que
eu adoro observar você mesmo de longe. Gosto de perceber seu sorriso quando
deixa seu jeito sério de lado e ri de algo em meio à correria do seu trabalho.
Por isso faz um favor? Fica de frente pra produção, assim eu poderei observar
melhor... Beijo! ”
Esse foi o texto no bilhete do daquele dia,
deixado sobre a mesa de Mariah, entre tesouras, linhas, régua e tecidos
cortados.
Por um tempo, quase todos os dias,
era o que ela encontrava em sua longa mesa de madeira e ferro, ao acender as
luzes do setor ás seis da manhã. Bilhetes simples, outros mais criativos e
sempre exaltando sua beleza, seu jeito ou apenas a recebendo com um colorido
bom dia!
Mariah exercia função de
responsabilidade no controle de qualidade dos produtos de uma camisaria.
Passava o dia em pé, apoiada a mesa, recebendo ordens, repassando controles e
resultados de hora em hora. Além disso, tinha o poder de fascinar os colegas de
trabalho que disputavam sua atenção e poucos sortudos a conseguiam. Mesmo
assim, ela não desconfiava de quem eram aquelas letras, nem fazia ideia de como
os bilhetes chegavam à sua mesa antes dela no setor. Nunca sondou ou fez alarde
pelo fato de ser admirada de tal forma secreta... Apenas agia de forma
discreta... E dessa mesma forma, discreta, ela mudou de posição e ficou de
frente para a produção satisfazendo o pedido do bilhete.
Ao perceber a troca de lugar, um
longo sorriso se formou em meus lábios. Boba como se fosse a primeira vez a
estar apaixonada. Sim! Era platônica, mas era paixão e eu adorava cultivar e
regar com vontade o frio na barriga que era provocado pela presença de
Mariah... Acompanhava cada movimento dos seus olhos tentando encontrar os meus
no meio da produção. Sorria de canto às vezes, pois tinha certeza que estava
sendo observada. Seus olhos castanhos claros pareciam enfeitiçar. O traço do
seu corpo fazia sombra no corredor, arrepiava-me sua voz rouca cheia de atitude
ao passar por mim em busca de ajuda para seu trabalho. Tinha uma postura
naturalmente superior aos demais. Impunha-se, mas era humilde conquistando a todos
com seu ar misterioso que despertava o desejo alheio.

Eu aproveitava cada momento para
chegar mais perto, de forma a não levantar suspeitas. Uma amiga partilhava
desse amor platônico e me encorajava a me revelar. Na fila do ponto, no almoço,
no intervalo da ginástica laboral, no corredor, na sua mesa. Eram mágicos os
momentos que conseguia conhecer um pouco mais sobre ela. Aproveitava de
informações que os meninos falavam sobre ela no setor. Se estava namorando, o
que gostava de fazer... Eu me mordia de ciúmes dos comentários sobre suas
pernas, seu sorriso, até do delicado piercing
no nariz que a deixava simplesmente sexy. –Ah!
Como conquista-la? Era a pergunta que eu me fazia, mas aos poucos me fiz notar
na roda de amigos. Graças ás horas extras de trabalho e pelo fato da minha
atividade na fábrica depender diretamente da função dela a aproximação foi inevitável.
Não sei ao certo quanto tempo se
passou. Mas houve festas, reuniões de fim de semana com os amigos as quais eu a
convidei, ela compareceu, isso facilitou o contato extra trabalho. A última
reunião foi uma despedida e antes disso Mariah soube de quem eram os bilhetes.
Numa manhã de Julho de 2008, algo
ruim me faria perder o emprego, embora todos quisessem me consolar e fazer
pensar positivo, eu arrumei meus pertences pessoais, organizei o setor e
orientei a todos aqueles meninos e meninas que trabalhavam sob minha liderança naquele
setor que eu construí durante seis árduos anos. À tarde no fim do expediente
fui chamada a sala da direção para conhecer a sentença que me tiraria do lugar
o qual sempre dei o meu melhor, a minha maior dedicação em anos de trabalho... E
eu deixaria ali também, aquele frio na barriga, o sorriso bobo de todo manhã,
dos últimos meses ao perceber a presença de Mariah... Depois de ter sofrido uma
decepção amorosa enorme e ter sofrido consequências a ponto de perder saúde física
e psíquica eu perderia o que mais eu me orgulhava... Meu primeiro emprego!
Ao sair da sala, passei pelo
setor dela, a fábrica já havia encerrado o expediente, fui até a mesa dela e
escrevi o último bilhete, como sempre fazia antes de fechar o portão e ser a
última a ir embora pra casa.
“-Infelizmente não haverá mais
bilhetes esperando você chegar. Quero que corra tudo bem, e que eu consiga
manter sua amizade lá fora! Sentirei falta de olhar você pela janela da sala,
de ver seu sorriso ao bater metas, de sentir seu perfume no intervalo da
ginástica e de conversar com você durante o almoço. Você foi como um sonho o qual
eu não queria despertar! Mas que de forma real me libertou do medo e da incerteza
que eu tinha de conseguir amar outra vez. Você não sabia, mas durante uns meses
te amei e você correspondeu mesmo que involuntariamente, ao atender cada pedido
meu. Tenha um bom dia!” - Esse foi o único bilhete que eu assinei meu nome.
Depois disso houve a festa em
minha despedida, e ela linda me abraçou, reconheceu talvez que foi bom saber
que era eu, e sem muitas palavras curtiu a festa e permaneceu em minha vida!
Amigas, confidentes ou amantes em
silêncio... O que importa é que ela me aceitou assim, amando-a mesmo que nada
realmente fosse possível acontecer. Os anos passaram, eu sempre a tive por
perto, outros amores eu vivi, platônicos ou imprestáveis, mas aquele sonho eu
guardei... Assim como ela guarda discretamente, o segredo de Mariah.